Quem tem filhos...

... tem cadilhos. Frasezinha irritantemente certa, esta.

Aqui estou eu, à meia-noite e meia, ainda não decicdi se mais zangada com ele, se angustiada por lhe ter causado, com toda a certeza, uma noite agitada.
Mas na verdade, acho que estou com ambos os sentimentos.

Hoje foi um daqueles dias porreiros, em que por acaso, as coisas encaixam e dá para de tudo; corre tudo bem, até à altura em que se borra a pintura.
O mais chato é já não termos tempo de compor o "quadro".

Resumindo:
Ele não tinha aulas de tarde; eu consegui organizar as coisas para também sair mais cedo, uma logística incrível, irmã incluída, que pedi autorização à professora para a falta desta tarde.
Claro que estas coisas saem-me do pelo a mim, que tenho de andar de carro de um lado para o outro, inclusivé a casa do pai, que, de alguma forma, arranja sempre maneira de não mexer uma palha e obrigar-me a ir a casa dele para ir buscar a tralha e a roupa da semana ( que devolve ou amarrotada ou suja ou whatever...)

Eu engulo estas coisas todas, a bem da estabilidade dos miúdos, mas, pronto... às vezes falta-me a paciência... mas, lá está... a bem dos miúdos, a bem dos miúdos, a bem dos miúdos, repito para mim própria.

Como dizia, viémos para casa. No caminho ainda deu para comprar um par de botas à Rita (é a verdadeira situação de "tudo e mais um par de botas"!). Compras terminadas, almoçei a desoras - aliás, eles quiseram almoçar comigo no mac... à laia de lanche. E como um dia não são dias, e até parecia fim-de-semana, como dizia a Rita, boa disposição e almoço para mim e lache para eles.

Brincámos, brincaram, eu li um livro acompanhada do borburinho agradável destes dois pardais.

Não sem antes perguntar a ambos a sacrossanta pergunta "alguém tem TPC'S???". Repeti mais 2 vezes.

Um "NÃO!" convicto foi o que obtive de resposta.

Confiei. Como é que se faz, se não dermos um voto de confiança. Afinal um esquecimento ou dois, no início, até se desculpa. Porque na realidade, é tudo novo para o Tomás. Tanta rotina, tanta preocupação, temos que os ajudar. O 5º ano não é fácil... não é, não senhor...

Mas ajudar passa por supervisionar.

Não custa preparar a mochila para as aulas do dia seguinte, não por sistema, mas naqueles dias em que a hora de deitar vem a correr, ou que surgiu uma última conversa mais engraçada, que raio, não custa nada dar uma mão ao miúdo.

Até porque se lhes dermos esta ajuda, também temos oportunidade de ver como é que estão os cadernos, em termos de apresentação, de cuidado, e dos TPC's...

Pronto, e foi aí que o disco se riscou. Estava eu a organizar as coisas para amanhã e deparo-me com um caderno, de uma disciplina que teve na sexta, com duas páginas inteiras de exercícios que não fez.

Diz o pai que viu (??) os cadernos com ele no fim-de-semana.

A verdade é que lá estava a indicação de duas páginas que vão amanhã por fazer.

Aborreci-me imenso com o Tomás. Tanto, mas tanto, que o fui acordar para lhe perguntar porque não tinha feitos os trabalhos hoje à tarde. Zanguei-me por já não ser a primeira vez que isto acontece.

Já lhe expliquei inúmeras vezes que ele tem de fazer os trabalhos; que tem de ler durante o fim-de-semana as aulas passadas para ir encaixando a matéria e consolidado aos poucos o que já deu; que tem de ler um pouco mais adiantado para preparar a aula seguinte, pois só assim consegue assegurar que a participação é boa (os critérios de avaliação estão escritinhos em todos os cadernos de todas as disciplinas, ditados por por cada um dos professores).

Já lhe expliquei que estudar é o emprego deles.

Já lhe disse que não preciso que seja o melhor da turma, só que se esforçe e seja o melhor possível.

Já lhe disse que escusa de ter medo de chumbar, porque isso para mim não é grave, desde que eu saiba que se chumbou emas que não foi por falta de trabalho, estou cá para ele, para o ajudar.

Mas já lhe fiz saber que se chumba porque se encostou à sombra da bananeira, ai aí, estamos mal.

Já lhe expliquei que eu tenho 3 formas de lidar com isto:

- a primeira, mais fácil, mas absolutamente antagónica ao meu entendimento do que é ser encarregado de educação e, sendo-o, sendo responsável, é estar completamente nas tintas, ver como corre e deixá-lo em autogestão;

- a segunda, ainda fácil, que passa por ter uma atitude verdadeiramente autoritária, mandá-lo fazer as coisas, sem o escutar, assim e em vez de lhe explicar porquê, é fazer e calar;

- finalmente, a terceira, que dá mais trabalho, mas envolve mais, é trabalhar em colaboração com ele, e ele comigo, e com o pai também, e que passa por fazermos as coisas, puxar por ele, ouvir as dúvidas e tentar estudá-las em conjunto, sem ter de estar a dizer-lhe constantemente que trabalhe, que leia, que faça resumos de matéria e resolva exercícios.

Eu sei que só tem 9, quase 10 anos. Que acabou de entrar no 5º ano, que saíu do casulozinho onde tem andado desde que nasceu, mas, e se não for agora, quando é que lhe incuto método e disciplina de trabalho ( coisa que passa por fazer os tpc's, mas que está para além disso?)?

Eu não quero criar um "nerd" que só faz trabalhos, que só estuda e que passa ao lado do resto. Não quero e também não é o estilo dele. Já se lhe avizinham outros dotes pessoais...
Mas não quero deixar de fazer qualquer coisa e de tomar uma atitude firme.

Para já, escrever uma série de vezes no caderno "Nunca mais me vou esquecer dos TPC'S!". Um recado à professora a dizer que tomei conhecimento da falta.

E um mês de castigo sem playstation.

E agora eu, aqui estou, sozinha nisto, a sentir-me mal por o ter acordado, por ter ralhado com ele e o ter notificado destes castigos.

E a achar que não tenho o mesmo cuidado do lado de lá... do pai...