Medir forças...

Sempre foi entendimento meu e do pai dos meus filhos que lhes fazia bem ir à praia com os coleguinhas do colégio. É, portanto, prática habitual o facto de fazerem uma quinzena de praia pelo colégio. No ano passado o Tomás mostrou-se pouco disposto a tal, porque não gosta de ir para a praia muito cedo. Quanto à Rita, o que ela quer mesmo é brincar, por isso tanto lhe faz ir mais cedo ou mais tarde.

Este ano passou-se uma situação curiosa: quando lhe disse que ia para a praia, respondeu que não queria. Mas este ano, a sua manifestação de desagrado foi mais longe. “Atirou-me” para canto com a seguinte frase: “Tu e o pai têm que perder esse hábito de marcar as coisas sem falar comigo primeiro!”. Assim, tal e qual!

A primeira reacção foi de achar graça. Qual de nós não acha graça a um fedelho de 6 anos com tamanha “personalidade”? Achei-lhe graça, comentei com a minha mãe e irmã e ri-me que me fartei.

Todavia, com o passar dos dias e das reacções matinais, com as suas tentativas sucessivas de não ir à praia, as coisas azedaram… na segunda lá foi, muito a contragosto, na terça, teve sorte, porque choveu e eu não os deixei ir, na quarta, porque íamos jantar a casa de uns amigos, eu tinha argumento para negociar…

Mas na quinta-feira, já sem argumentos e sem paciência, e após 20 minutos de viagem de casa até à escola com um miúdo com um humor de cão, com uma beiças até ao umbigo, reagi mal e avisei-o que a decisão de ir à praia ou não seria da sua única responsabilidade. Mais: avisei-o que teria de ser ele a explicar ao pai a sua decisão. Disse-lhe que se não fosse, eu ficava aborrecida e, pela primeira vez na minha vida, deixei o meu filho no colégio, verdadeiramente zangada com ele.

Durante todo o dia pensei nisto. Pensei que tinha de dar um desconto ao miúdo, pois isto de ter os pais separados exige muito mais deles do que talvez a gente imagine.
Mas depois pensei noutra coisas; pensei em como não estava preparada para ver a minha autoridade a ser posta em crise por uma criança de seis (?!) anos…talvez também nestas questões esta geração seja prematura, mas confesso que seis anos, seis verdes anos, me pareceu demais… não sou autoritária, pelo contrário, nunca imponho restrições ou comportamentos sem os fundamentar, porque se houve coisa que nunca gostei foi de um despótico “não, porque não”.

Aliás, acho que uma explicação clara, simples e verdadeira tem todo o sentido. Para além de lhes dar o sentido da decisão, fá-los sentir importantes ao ponto de alguém “perder” tempo com eles apresentando justificações.

Depois, pensei noutra coisa: se lhe dou abertura nisto, abro um precedente para uma série de coisas, precedente esse que só planeio ter daqui a um bom par de anos.

À tarde, fui buscá-lo e perguntei (já sabendo), se tinha ido à praia. Perante a resposta negativa, confrontei-o com a circunstância de ter de ser ele a dizer ao pai, tal como lhe explicara de manhã.

Está claro que, chegados a casa, a conversa “dura” teve lugar. E como ele se arrogou no direito de decidir contra aquilo que eu e o pai havíamos estipulado, disse-lhe, com toda a clareza que, durante os anos mais próximos, quem manda numa série de coisas é o pai e a mãe; que quando nós decidimos que ele vai para a praia ou para o ATL, por enquanto não é prorrogativa dele decidir em contrário; e que as opiniões dele não são são mais que isso, porque a decisão cabe-nos a nós, pais. Expliquei-lhe que quando o mando para a cama é para ir para a cama. Expliquei-lhe uma série de outras coisas que são sempre feitas sob os seus mais altos protestos para as quais já ma vai faltando a paciência.

Quando o pai ligou ele ficou muito vermelho, ainda tentou esquivar-se à conversa, mas eu avisei-o que não lhe restava outra hipótese e que o pai esperava pelas suas explicações.

Nessa noite, ao meu pedido de ida para a cama, foi o primeiro a obedecer. E na manhã seguinte, levantou-se, vestiu-se e não houve qualquer cara feia com o assunto.

Sei que fui dura com ele. Sei que talvez ele me tenha detestado muito naquela noite e tenha sonhado que eu sou uma bruxa má. Mas tenho a sincera sensação de que agi bem. Afinal, trata-se de uma criança de seis anos, que não faz ainda a ideia, na plenitude, do que é o bem e o mal para si. E sobretudo, não permito que meça forças comigo, muito menos nestes termos.